Com a chegada da inteligência artificial, o futuro do trabalho pode ser mais humano do que a gente imagina
Os trabalhos do futuro precisarão mais do seu coração do que seu cérebro. Quando todo mundo dominar a IA, você precisa ter habilidades humanas
Em minhas andanças falando e pensando sobre o mundo corporativo, há uma preocupação quase unânime que escuto em todos os lugares: qual será o impacto da IA no trabalho e em nossos empregos?
Quando tentamos achar respostas, elas não são claras até mesmo para quem se dedica a estudar e entender esse mundo (como eu). Essa semana, por exemplo, recebi, do meu círculo profissional, duas informações completamente conflitantes.
A primeira foi um podcast compartilhado por um colega. Nele, um especialista em inteligência artificial dizia que a IA, nos próximos anos, vai dizimar empregos e tem potencial para literalmente reescrever a maneira como o mundo corporativo funciona. Combinada com máquinas e robôs, ela seria capaz de fazer quase tudo que hoje nós, humanos, fazemos. Teríamos tão pouco trabalho para as pessoas que precisaríamos reimaginar nossa sociedade e encontrar outras maneiras de ocupar nosso tempo.
Pouco depois, um amigo me mandou um material da Gartner com uma previsão bem diferente: a partir de 2028, a inteligência artificial deve passar a criar mais empregos do que eliminar.
O que prevalecerá? O apocalipse do fim dos empregos ou a criação de novas profissões em abundância? Quem está certo? Eu não faço a menor ideia, e quem fala que sabe provavelmente está errado. A gente simplesmente não sabe o que vai acontecer.
Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes profetizou, ao olhar para os avanços tecnológicos e para o aumento da produtividade, que, em cerca de cem anos, poderíamos estar trabalhando algo como 15 horas por semana.
Eu não sei você, mas eu ainda estou nas minhas mais de 40 horas por semana e sem nenhuma perspectiva de mudar no curto prazo. Keynes errou feio, assim como quase todos os outros futuristas que vieram depois dele.
Para mim, a pergunta não deveria ser sobre o que irá acontecer no futuro. Deveria ser: diante de tanta incerteza, onde eu deveria colocar minha energia e atenção para continuar competitivo no mercado de trabalho? Será que eu deveria apostar todas as minhas fichas em aprender inteligência artificial? Criar agentes? Dominar prompts sofisticados? Conhecer cada nova ferramenta que aparece?
Veja bem: eu acho que aprender inteligência artificial é essencial. Eu vejo a IA de uma maneira parecida com o que já foram um dia o Excel ou o PowerPoint, só que, claro, com um potencial astronomicamente maior.
Eu mesmo já uso inteligência artificial em várias fases do meu processo de trabalho. Coisas que antes consumiam horas hoje consigo fazer em uma fração do tempo que eu gastava.
Eu arriscaria dizer que o profissional do futuro precisará, sim, ser um especialista em usar inteligência artificial. Só que agora levantamos uma segunda pergunta: o que mais depois disso? Assumindo que a IA será uma das grandes ferramentas que vamos todos utilizar para fazer boa parte do nosso trabalho, o que mais eu preciso fazer?
Um dos estudos que mais gosto sobre o futuro do trabalho é do Fórum Econômico Mundial. No último, de 2025, ele lista as dez habilidades que as empresas vão exigir de seus profissionais nos próximos cinco anos e, pasmem, a maioria das habilidades são as tais das soft skills (que eu prefiro chamar de habilidades humanas).
Dominar IA está na lista e aparece como uma das que mais crescem, mas estão lá também: criatividade, resiliência, escuta, flexibilidade, curiosidade, liderança e influência etc.
O que me leva a uma questão sobre a qual sempre desafio os profissionais que cruzam meu caminho a pensar: como estão as suas habilidades humanas? Você sabe se comunicar com eficiência? Tem pensamento analítico? Sabe trabalhar bem com outras pessoas? Escuta de verdade? Tem flexibilidade para lidar com mudanças? Consegue ser uma força positiva dentro de uma equipe?
Um dos exercícios que mais gosto de fazer é perguntar, em minhas palestras, quem ali sabe escutar bem. Geralmente, 50% a 60% da audiência levanta a mão. Então eu faço outra pergunta: quantas camadas existem em uma boa escuta? Ninguém sabe dizer.
É impressionante como somos rápidos para falar, principalmente quando o assunto são as habilidades humanas que dominamos, mesmo quando quase nunca paramos para pensar sobre o que elas são, como funcionam e o que significa realmente dominar aquela habilidade.
É bem possível que você esteja fazendo o mesmo, superestimando as suas habilidades humanas. E é aqui que deixo o grande conselho deste artigo: invista pesadamente nessa área.
Em um futuro em que a IA irá fazer grande parte do nosso trabalho e que quase todo conhecimento técnico estará a um chat e prompt de distância, o profissional do futuro, para mim, será aquele que domina suas habilidades humanas de forma consciente e profunda.
Minouche Shafik, ex-diretora da London School of Economics, resumiu isso em uma frase que gosto muito: “No passado, os trabalhos eram sobre músculos. Agora são sobre cérebros. Mas, no futuro, serão sobre o coração.”
E a hora de agir é agora. Ninguém sabe exatamente o que acontecerá com nossos empregos, esperar que a empresa, o chefe ou o mercado decidam o que você precisa aprender me parece uma péssima estratégia de carreira. Se você não correr para cuidar do seu “coração”, ninguém vai.
Luciano Santos é palestrante, autor do livro Seja Egoísta com sua Carreira, curador do livro Carreira é Sorte Ação e sócio-diretor na Fluxus





