A IA não é uma bolha, mas o financiamento da IA pode ser
Uma tecnologia pode ser absolutamente transformadora sem que todos os investimentos realizados em seu nome sejam bons investimentos
A discussão sobre uma possível bolha da inteligência artificial tem colocado, no mesmo lugar, três coisas que deveriam ser analisadas separadamente.
A primeira é a própria tecnologia e sua capacidade de transformar empresas, mercados e a economia. A segunda é a infraestrutura necessária para sustentar essa transformação. A terceira é a maneira como o mercado financeiro pretende pagar pela expansão dessa infraestrutura. Não vejo sinais de que a inteligência artificial seja uma bolha. Pelo contrário. Estamos diante de uma transformação tecnológica das mais importantes das últimas décadas, com aplicações concretas e uma capacidade de reorganizar processos produtivos que já pode ser observada em diferentes setores. Minha preocupação está na velocidade com que estamos tentando transformar a necessidade real de capacidade computacional em uma nova classe de ativos financeiros.
O movimento da Nvidia com grandes instituições de Wall Street para viabilizar centenas de bilhões de dólares em infraestrutura de IA precisa ser entendido dentro desse contexto. Até agora, o que existe está mais próximo de uma intenção do que de um acordo financeiro concluído, com termos, prazos e condições claramente estabelecidos.
Ainda assim, a iniciativa diz bastante sobre o momento do mercado e também sobre a posição da Nvidia dentro dele. A empresa construiu uma liderança extraordinária fornecendo os chips que sustentaram a primeira grande onda da inteligência artificial generativa. Acontece que alguns de seus maiores clientes são justamente as empresas mais capazes de reduzir essa dependência. Amazon, Google e Meta investem em chips próprios, enquanto outros fornecedores tentam ocupar parte desse mercado. Os resultados da Nvidia continuam muito sólidos, mas a ameaça competitiva é bastante concreta.
É nesse cenário que o financiamento das chamadas neoclouds ganha importância. Essas empresas precisam adquirir uma quantidade enorme de GPUs para oferecer capacidade computacional e competir com os grandes provedores de nuvem. Ao ajudar a criar condições financeiras para que esse mercado cresça, a Nvidia não está apenas estimulando a construção da infraestrutura de IA, ela está fortalecendo uma nova base de clientes para seus próprios produtos em um momento em que os hyperscalers procuram alternativas.
Há uma lógica empresarial evidente nisso. A questão é saber se a lógica financeira que está sendo construída ao redor dessa estratégia é igualmente sólida.
O paralelo que me parece mais útil vem da infraestrutura de telecomunicações dos anos 1990. Naquele momento, a tese central estava correta: a internet cresceria, o mundo precisaria de uma capacidade muito maior de transmissão de dados e seria necessário investir pesadamente em fibra óptica e redes. Tudo isso aconteceu. O erro não estava na tecnologia nem na percepção de que seria necessária mais infraestrutura. O problema foi a forma como uma expectativa verdadeira sobre o futuro passou a justificar praticamente qualquer investimento no presente. Capital abundante financiou uma expansão enorme de capacidade, empresas captaram recursos com projeções agressivas e investidores assumiram riscos que nem sempre estavam refletidos nos retornos prometidos.
Quando aquele ciclo terminou, a internet não deixou de existir. A fibra óptica continuou instalada e acabou sendo fundamental para o crescimento da economia digital. Mas muita gente que financiou sua construção perdeu dinheiro. Essa é uma diferença importante porque mostra que uma tecnologia pode ser absolutamente transformadora sem que todos os investimentos realizados em seu nome sejam bons investimentos. O fato de sabermos que a inteligência artificial demandará cada vez mais capacidade computacional não responde, por si só, se os ativos construídos hoje terão utilização suficiente, durante tempo suficiente e a preços suficientes para remunerar o capital empregado.
Essa dúvida se torna ainda mais relevante quando chips começam a ser apresentados como ativos de infraestrutura comparáveis a fábricas. A ideia de uma “fábrica de inteligência artificial” é intuitiva e ajuda a explicar economicamente um data center cheio de GPUs: investe-se em capacidade, vende-se computação e gera-se um fluxo de caixa. O problema é que a analogia pode produzir uma sensação de previsibilidade maior do que a realidade permite. Uma fábrica, um imóvel ou uma rodovia podem permanecer economicamente produtivos por décadas. Hardware de tecnologia vive sob outra dinâmica. Chips depreciam rapidamente porque novas gerações oferecem mais desempenho, eficiência energética e capacidade por dólar investido. O ativo que hoje está no centro da corrida por IA pode continuar funcionando daqui a alguns anos, mas isso não significa que continuará competitivo nas mesmas condições econômicas.
Isso importa especialmente quando esse hardware passa a servir, direta ou indiretamente, como suporte para operações de crédito de prazo mais longo. O valor de uma garantia não depende apenas de ela continuar fisicamente existente. Depende da sua capacidade de preservar valor econômico. Se a infraestrutura financiada perde competitividade antes do vencimento da dívida, o risco da operação muda substancialmente. E, em tecnologia, essa depreciação econômica pode acontecer muito antes da depreciação física do equipamento.
Os grandes hyperscalers conseguem absorver parte desse risco porque têm balanços muito fortes, receitas diversificadas e capacidade de financiar seus investimentos com recursos próprios. O cenário é diferente quando se cria um veículo de crédito para permitir que empresas menores, com menos histórico e menor capacidade de pagamento, façam investimentos bilionários. Para que essas operações funcionem, é preciso assumir que a infraestrutura comprada hoje produzirá fluxos de caixa suficientemente estáveis no futuro. É exatamente essa previsibilidade que julgo precisar de um olhar mais cauteloso.
Não há nada de errado, em si, em financiar infraestrutura com dívida. Boa parte da infraestrutura que usamos no mundo foi construída assim. A questão é a qualidade das premissas que sustentam essa dívida. Se a demanda por determinada capacidade computacional ficar abaixo das projeções, se o preço da computação cair, se novos chips tornarem equipamentos existentes menos competitivos ou se os clientes migrarem para arquiteturas próprias, a receita esperada pode não se materializar. Quando isso acontece em empresas muito alavancadas, deixa de ser apenas uma discussão sobre inteligência artificial e passa a ser uma discussão sobre crédito.
É justamente aí que vejo o maior risco do momento atual. Uma correção nas ações de empresas de tecnologia é um evento relativamente conhecido pelo mercado. O investidor sabe que comprou participação em um negócio sujeito a volatilidade e a mudanças de valuation. Crédito funciona de outra maneira. Dependendo de como essas operações forem estruturadas e distribuídas, a exposição pode aparecer em fundos, bancos, investidores institucionais e instrumentos que, à primeira vista, parecem distantes da corrida pela inteligência artificial. Se houver deterioração relevante da capacidade de pagamento, o problema deixa de estar restrito às empresas que compraram GPUs e pode alcançar outras classes de ativos.
Foi exatamente essa separação que procurei fazer ao discutir o tema. Não vejo razão para chamar a inteligência artificial de bolha. Também não acho que valuations elevados, isoladamente, sejam suficientes para concluir que todo o setor esteja vivendo uma. O que vejo são elementos preocupantes na engenharia financeira que começa a ser construída para sustentar a expansão da infraestrutura. O paralelo com telecomunicações não está no destino da tecnologia, mas no risco de uma necessidade real ser utilizada para justificar estruturas financeiras cuja capacidade de retorno ainda não foi suficientemente testada.
A história da internet deveria ter nos ensinado justamente isso. É possível acertar completamente sobre uma transformação tecnológica e errar completamente sobre quem vai ganhar dinheiro financiando sua infraestrutura. A inteligência artificial pode se tornar uma das tecnologias mais importantes deste século e, ao mesmo tempo, parte do capital levantado para construir a capacidade computacional que ela exige pode destruir valor. Não existe contradição entre essas duas coisas. Existe apenas uma diferença que investidores deveriam observar com muito cuidado: acreditar no futuro da IA não é o mesmo que acreditar em qualquer estrutura financeira criada em seu nome.





