Redução da jornada de trabalho pode acelerar automação e exigir novas competências
Investimentos em IA e a urgência em requalificação profissional para manter a produtividade das empresas devem entrar nos debates sobre o fim da escala 6x1.
Enquanto a PEC sobre o fim da escala 6×1, que propõe a redução da jornada de trabalho no Brasil, segue em debate no Senado, uma discussão paralela às mudanças nas relações profissionais chama a atenção de especialistas em mercado e tecnologia: jornadas menores podem acelerar a adoção de inteligência artificial e automação pelas empresas como forma de preservar ou ampliar a produtividade.
Ao mesmo tempo, estudos revelam que o movimento tende a transformar as competências exigidas dos trabalhadores, tornando a requalificação contínua um dos principais desafios dos próximos anos. Segundo o PwC 2026 Global AI Jobs Barometer, organizações mais expostas à IA registram crescimento de produtividade 40% superior às demais, enquanto as habilidades exigidas nas profissões mais impactadas pela tecnologia evoluem duas vezes mais rápido que nas demais ocupações. A pesquisa analisou mais de um bilhão de vagas de emprego em seis continentes.
Para Arnobio Morelix, cofundador e CEO da Faculdade Sirius, o debate sobre a jornada de trabalho não pode ser tratado apenas sob a ótica dos direitos trabalhistas; é preciso também considerar seus efeitos sobre a dinâmica de inovação das empresas. “Quando uma organização precisa manter ou aumentar sua capacidade de entrega com menos horas disponíveis, a tendência natural é buscar ganhos de eficiência”, explica.
Para ele, isso significa investir em IA, automação e redesenho de processos. “A discussão sobre produtividade passa inevitavelmente pela tecnologia”, afirma o especialista. “O risco não é apenas perder empregos para a IA. O maior risco é manter profissionais preparados para um mercado que já não existe mais. As funções continuam existindo, mas as competências exigidas mudam rapidamente”.
O próprio levantamento da PwC aponta que as vagas com maior exposição à IA passaram a exigir competências tradicionalmente associadas a profissionais mais experientes, como capacidade de julgamento, liderança, pensamento crítico e tomada de decisão. Nos cargos de entrada mais impactados pela IA, a demanda por essas habilidades cresceu sete vezes em relação às ocupações menos expostas. Além disso, empregos que exigem conhecimentos em IA crescem quase oito vezes mais rápido do que o mercado de trabalho como um todo.
Outro estudo, publicado pelo Fundo Monetário Internacional (IMF), reforça a tendência ao mostrar que a atualização constante de competências passa a ser fator decisivo para a empregabilidade. A análise identificou que uma em cada dez vagas anunciadas nas economias avançadas já exige pelo menos uma habilidade que praticamente não aparecia anteriormente, evidenciando a velocidade das alterações no mercado.
Mudança de mentalidade
Segundo Arnobio, essa transformação exige uma mudança de mentalidade tanto das empresas quanto dos profissionais. “Durante muito tempo a formação profissional era vista como uma etapa da vida. Hoje ela se tornou um processo permanente”, acredita. “Quem aprende continuamente ganha vantagem competitiva independentemente da profissão”.
Para o CEO, o principal desafio não está em decidir se a tecnologia será adotada, mas em preparar as pessoas para trabalhar ao lado dela. “A discussão sobre redução da jornada é legítima, mas ela precisa vir acompanhada de uma conversa igualmente séria sobre produtividade e educação”, alerta. “Quanto mais as empresas acelerarem a automação, maior será a necessidade de formar profissionais capazes de resolver problemas complexos, interpretar informações, tomar decisões e trabalhar em conjunto com a IA. Esse é o verdadeiro debate sobre o futuro do trabalho”.





