IA entra na agenda dos conselhos de administração
Pressão por governança, responsabilidade jurídica e controle de riscos leva os boards a acompanhar de perto a adoção de sistemas autônomos.
O receio de perder competitividade na corrida pela IA fez com que discussões antes concentradas nas áreas de tecnologia passassem a ocupar espaço na agenda dos conselhos de administração. No centro desse debate estão questões como a responsabilidade jurídica por decisões automatizadas, a governança dos modelos e os impactos financeiros que falhas na tecnologia podem provocar.
Para André Ditomaso, doutor em Ciência da Computação e Country Manager da Marlabs, consultoria global especializada em inteligência artificial e inovação, essa mudança mostra que a IA deixou de ser um tema exclusivamente técnico para se tornar uma responsabilidade fiduciária dos boards. Segundo ele, a reorganização da tomada de decisões acompanha o amadurecimento do mercado, em um contexto em que o ambiente digital passou a influenciar diretamente o desempenho e o valor das empresas.
Responsabilidade corporativa
Essa mudança já aparece em pesquisas internacionais. Levantamentos recentes do World Economic Forum e da PwC indicam que mais de 60% das grandes empresas globais contam hoje com algum mecanismo formal de governança de inteligência artificial em nível de board. Ao mesmo tempo, cresce nas organizações a discussão sobre responsabilidade corporativa, compliance regulatório e a definição de quem responde juridicamente por decisões automatizadas, sobretudo com o avanço da IA agêntica, cujos sistemas são capazes de tomar decisões de forma autônoma, fora dos fluxos tradicionais de TI.
De acordo com André, a chegada da inteligência artificial aos conselhos revela o quanto a inovação passou a caminhar lado a lado com a gestão de riscos. “Quando o board começa a ter medo da IA, é porque a empresa já está atrasada. A presença da inteligência artificial nos conselhos de administração não deve ser interpretada como um mero sinal de maturidade tecnológica. Pelo contrário: é o sinal de que a IA se tornou um risco de negócio que nenhum board pode ignorar. Tratar modelos preditivos ou generativos como um simples projeto de TI, sem o devido rigor de governança de dados, expõe a organização a falhas de tomada de decisão que impactam diretamente o balanço e a reputação fiduciária perante o mercado”, afirma o consultor.
Preocupação com os dados
Na avaliação do especialista, um dos principais obstáculos para que as empresas obtenham o retorno esperado sobre os investimentos em IA continua sendo a qualidade dos dados. A fragmentação das informações em diferentes sistemas e a falta de curadoria comprometem o desempenho dos modelos e dificultam a captura do ROI (Return on Investment). Além disso, algoritmos sem validação adequada podem reproduzir falhas operacionais em larga escala, afetando políticas de preços, análises de crédito corporativo e até diagnósticos setoriais.
Diante desse cenário, cresce também a responsabilidade dos conselhos na definição das regras de governança de dados e de Machine Learning. Para André Ditomaso, o desafio dos boards em 2026 será assumir um papel mais ativo na condução estratégica da inteligência artificial, estabelecendo responsabilidades claras sobre as decisões geradas pelos sistemas e reduzindo riscos regulatórios antes que projetos-piloto avancem para o ambiente de produção.





