Empresas já têm mais identidades digitais do que funcionários

Expansão de agentes inteligentes, automações e copilotos corporativos amplia os desafios da cibersegurança no controle de acesso e governança.

Por Izabel Duva Rapoport 17 ago 2026, 15h00 | Atualizado em 18 ago 2026, 01h13
Pessoa com cabelo escuro e camisa xadrez colorida, com o rosto coberto por um retângulo pixelado, em um fundo azul desfocado
 (magnific/Reprodução)
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Hoje, além dos acessos de funcionários, as áreas de tecnologia e segurança das empresas precisam administrar também as identidades digitais criadas por máquinas. Agentes de Inteligência Artificial, copilotos corporativos, APIs e sistemas automatizados, que já executam tarefas que antes eram exclusivas de pessoas, acabaram ampliando esse número, pressionando as organizações revisarem seus modelos de controle e governança. 

“A perspectiva sobre as identidades digitais mudou”, afirma Mirella Kurata, CEO da DMK3, especializada em cibersegurança e infraestrutura de TI. “Antes, nos preocupávamos em controlar quem, entre os funcionários, fornecedores e parceiros, poderia acessar determinadas informações. Agora, precisamos considerar também sistemas, aplicações e agentes de IA que realizam atividades dentro dos ambientes corporativos”. Esse cenário, segundo ela, representa uma nova etapa para o modelo conhecido como Zero Trust (ou confiança zero), que propõe que nenhum acesso seja considerado confiável automaticamente, mesmo quando parte de ambientes internos. Para ela, isso também precisa incorporar as chamadas “identidades não humanas”.

“Quando falamos em Zero Trust e segurança digital, não estamos falando apenas de implementar uma ferramenta. Estamos falando de capacidade de gestão”, explica. “Uma empresa precisa saber quais ativos possui, quais identidades acessam seus ambientes, quais riscos existem e como responder rapidamente quando um incidente acontece”. 

Maturidade na gestão

Ao mesmo tempo, a especialista ressalta que esse movimento ocorre em organizações que enfrentam desafios de maturidade na gestão dos ambientes tecnológicos. E diz ainda que uma análise realizada pela DMK3 identificou um contraste entre os ganhos potenciais e o nível de preparo das organizações: apesar de plataformas integradas poderem elevar a produtividade das equipes de TI entre 20% e 40% e reduzir custos com ferramentas redundantes em até 30%, há companhias que seguem operando de forma reativa diante dos incidentes – em média, os centros de operações de segurança (SOC) detectam dois incidentes críticos por dia, o equivalente a aproximadamente 730 ocorrências de alta severidade por ano. 

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Além disso, dados globais da Kaspersky indicam que 77% das empresas já sofreram pelo menos um incidente de segurança após ampliarem sua infraestrutura tecnológica, mas apenas 31% delas têm, atualmente, um plano formal de resposta. “Os números mostram que essa integração não é apenas uma questão de eficiência operacional”, diz, avaliando que as equipes devem aproveitar os ganhos de tempo e custo, a partir das automações, para serem mais estratégicas.

“Muitas empresas têm uma visão clara sobre seus colaboradores, mas ainda possuem pouca visibilidade sobre contas de serviço, APIs, integrações e automações conectadas aos seus sistemas”, explica. “Com a chegada da IA, essa complexidade aumenta porque novas identidades passam a operar com diferentes níveis de acesso”.

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Para a CEO, a expansão tecnológica reforça a tese de uma abordagem mais ampla de governança digital. O controle de identidades passa a envolver áreas como segurança, compliance, gestão de riscos e liderança executiva. “O risco não está apenas na tentativa de invasão de um sistema, mas no uso indevido de uma identidade que já possui autorização”, afirma Mirella. “Por isso, a gestão de acessos deixou de ser uma questão operacional da área de tecnologia e passou a fazer parte da agenda de risco das empresas”.

Adaptação cultural

Além dos desafios tecnológicos, a transformação digital, segundo ela, também enfrenta barreiras internas nas organizações relacionadas à adaptação cultural. “A área que mais costuma resistir às mudanças digitais é a operacional ou administrativa, principalmente porque envolve processos consolidados e uma percepção de que a tecnologia pode alterar rotinas estabelecidas”, informa. “Muitas vezes, a resistência não acontece pela falta de reconhecimento da importância da inovação, mas pelo receio sobre como essa transformação afetará o trabalho no dia a dia”.

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De acordo com o IT Trends Report da SolarWinds, fornecido à DMK3, 53% das empresas enfrentam retrabalho recorrente provocado por falhas sistêmicas ou fluxos ineficientes, o que contribui para atrasos na resolução de incidentes e redução na capacidade das equipes de tecnologia de atuar em projetos estratégicos, como o controle de ID.

Para a executiva, outro fator que influencia a velocidade da transformação digital é a dificuldade de mensurar o retorno dos investimentos em tecnologia. “Essa discussão precisa sair da lógica de aquisição de ferramentas e entrar na visão de resultados”, acredita. “Os líderes precisam entender como determinado investimento reduz custos, aumenta eficiência, diminui riscos ou melhora a tomada de decisão”. Para isso, ela pontua que a área da tecnologia deve compor a capacidade de crescimento, eficiência e continuidade do negócio, indo além do suporte. “Quando os investimentos digitais não estão conectados aos objetivos da empresa, existe uma dificuldade maior para apresentar seu valor”, completa.

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Diante dos números, com empresas tendo mais identidades digitais do que colaboradores, Mirella destaca que a questão central dos próximos anos já não será apenas responder quem acessou determinado sistema, mas entender o que está acessando, por qual motivo, com quais privilégios e durante quanto tempo. “Agora, não basta apenas proteger a infraestrutura, é preciso garantir que todos esses IDs, humanos ou não, estejam sob controle e dentro de uma estratégia de governança”, conclui.

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