China proíbe que chatbots e avatares de IA estimulem vínculo emocional com o usuário
Plataformas não poderão usar linguagem que simule relações românticas ou familiares. Objetivo é reduzir dependência e acabar com "namorados virtuais".
Nesta quarta-feira (15), a China anunciou novas regras para ferramentas de IA operarem no país, a fim de combater a dependência emocional entre os usuários dessas tecnologias – e, em última instância, acabar com os “namorados virtuais”.
São medidas que se aplicam a chatbots, assistentes virtuais, avatares… Quaisquer ferramentas de IA que usem texto, áudio, vídeo e outros formatos para simular interações humanas.
A nova regulamentação determina que esses serviços não podem agradar excessivamente os usuários, induzir dependência emocional ou vício nem prejudicar as relações interpessoais dos usuários no mundo real (saiba mais abaixo).
As plataformas não poderão incentivar seus usuários a manter conversas contínuas, usar linguagem que simule relações românticas ou familiares nem explorar fragilidades emocionais a fim de aumentar o engajamento.
As empresas que oferecem sistemas de inteligência artificial também ficam obrigadas a enviar lembretes periódicos para alertar os usuários que estão falando com um programa de computador.
As novas medidas ainda proíbem as plataformas de incentivar menores de idade a desenvolverem vínculos afetivos com avatares de IA e exigem que elas criem protocolos para intervir em crises e identificar emoções extremas e sinais de sofrimento psíquico.
As regras visam regular a operação de empresas como ByteDance (responsável pelo Doubao), Alibaba (Qwen) e a Tencent (Yuanbao), que já estavam suspendendo esse tipo de serviço.
As mudanças não valem para ferramentas que não envolvem interação emocional, como bots de atendimento ao cliente, assistentes de trabalho ou ferramentas de estudo.
Relacionamentos fake
Todas essas medidas parecem dignas de um cenário de filme futurista – o clássico Her (2014), do diretor Spike Jonze, retrata justamente a história de um homem solitário e deprimido que se apaixona por um sistema operacional com voz de mulher, Samantha. (É uma cena do longa que abre esta matéria.)
Mas essas histórias não existem só no cinema. Em 2018, um homem japonês casou-se com uma vocalista virtual chamada Hatsune Miku – mais especificamente, com o holograma da personagem que ele tinha no próprio apartamento, um oferecimento da empresa de tecnologia Gatebox. Hoje, cerca de 4 mil homens já fizeram o mesmo.
No chatbot Replika, os internautas são convidados a “conversar, refletir, crescer e construir uma conexão significativa” com um avatar personalizado, “seu amigo de IA”. A plataforma tem mais de 42 milhões de usuários ao redor do mundo.
Especialistas argumentam que essas ferramentas podem até provocar reações emocionais e aumentar o bem-estar dos usuários, como fariam interações humanas tradicionais. Mas é preciso lembrar que são robôs: não têm senciência, histórias, experiências nem vontades próprias. São apenas mímicos. Não podem oferecer a felicidade e a completude que relações verdadeiras oferecem.
Existem riscos psicológicos, comerciais e de segurança digital associados ao uso da IA como amiga ou companheira. “Conversar com humanos digitais pode distorcer a compreensão de como os relacionamentos funcionam”, explicou Joel Person, um neurocientista australiano, à revista Nature. “Porque [nessas conversas] não existem os desentendimentos e atritos vivenciados nos relacionamentos com pessoas reais.”
Mais de 1,3 milhão de companhias na China oferecem serviços de avatares digitais, segundo um relatório governamental de 2024, para setores como educação, saúde e cuidados domésticos.
O setor chinês de “humanos digitais” movimentou US$ 600 milhões em 2024, segundo a agência estatal de notícias Xinhua, e este é um mercado que cresce 85% ao ano.





