Bill Gates alerta que a IA pode causar “um bilhão de mortes” e cobra regulação do governo dos EUA
Gates está mais preocupado com pessoas mal-intencionadas do que com uma rebelião das máquinas. Para ele, só a autorregulação das empresas não evita tragédias
Em 2023, Bill Gates escreveu que os riscos da inteligência artificial eram “reais, mas gerenciáveis”. Três anos depois, o tom que ele adota já é bem outro.
Em entrevista ao programa Meet the Press, da NBC News, exibida no domingo (27), o cofundador da Microsoft afirmou que a IA é “certamente poderosa o bastante para provocar eventos que causem um bilhão de mortes”. Ele também pediu que políticos e autoridades de segurança entrem na discussão sobre como fiscalizar a tecnologia.
A mudança de postura dele é algo bem construído nos últimos dias. Gates, historicamente um dos maiores otimistas do setor, publicou em agosto um ensaio de quase 6 mil palavras no qual diz temer que a IA faça mais mal do que bem. Ele também anunciou que, por meio da Fundação Gates, vai investir US$ 1 bilhão para ampliar acesso a ferramentas de IA a quem mais precisa dela. “As pessoas com maiores necessidades são, muitas vezes, as que têm menos poder para influenciar o direcionamento da inovação e dos investimentos”, afirmou na ocasião. O objetivo desse investimento é garantir que a tecnologia chegue àqueles que têm pouco, ao invés de só beneficiar os ricos.
As pessoas são mais perigosas do que as máquinas
Mas o alerta que Gates fez durante a entrevista não é sobre o perigo de máquinas escaparem do controle humano e aniquilarem a humanidade sozinhas. Ele está mais preocupado com gente mal-intencionada usando a tecnologia. “Nunca houve uma arma tão poderosa quanto a combinação de pessoas com más intenções e as ferramentas de IA mais recentes”, disse à apresentadora Kristen Welker.
Em conversa com o jornalista Ezra Klein em um podcast do The New York Times, ele foi mais específico. Ele disse que “a IA cruzou o limiar e hoje ela já é capaz de ajudar um bioterrorista a matar centenas de milhões de pessoas”. Segundo ele, o mesmo vale para um ciberataque capaz de embaralhar contas bancárias e desligar a rede elétrica. Gates ainda disse que pequenos grupos já conseguiriam criar um patógeno “pior que a varíola”, algo que antes exigia os recursos de um país.
Para ele, esse perigo iminente pesa mais do que o risco, mais distante, de os sistemas fugirem do controle humano.
A gente já mostrou aqui na VC IA como criminosos e governos usaram IA para fins perigosos, em um relatório da Anthropic que também citou casos de pesquisa biológica perigosa.
Gates também comentou a ideia de um “kill switch”, um botão de desligamento de emergência para a IA. Para ele, isso não é suficiente. “Ainda não chegamos ao ponto em que esses sistemas assumem o controle de computadores de forma autônoma e não podem ser desligados. Então essa discussão apenas demonstra o quão pouco técnicas algumas pessoas são”, defendeu.
Para ele, essa falta de conhecimento técnico agrava os riscos. Ele faz uma comparação com as armas nucleares, que foram desenvolvidas pelos Estados, então os governantes tinham certo entendimento do assunto. Já que as IAs surgiram do setor privado, eles não sabem mais com o que estão lidando. “Esta é a coisa mais perigosa que a humanidade já viu”, disse ele. “Isso faz com que as armas nucleares pareçam insignificantes.”
O que falta, na visão dele, são registros. “Para moderar o mau comportamento, você precisa de visão e de registros do que está sendo feito”, disse. A proposta é que o governo exija das desenvolvedoras monitoramento e salvaguardas embutidos nos modelos, com histórico que permita às autoridades ver como eles são usados.
Pedido a Washington
Perguntado por Welker se o Congresso precisa aprovar uma lei, Gates respondeu: “Com certeza”. Ele afirmou que “ninguém acha que a autorregulação é suficiente”. “É preciso que as autoridades e os políticos entrem na discussão sobre como serão as salvaguardas e o monitoramento. E isso precisa ser obrigatório”, defendeu. Gates ainda disse que isso provavelmente vai causar um pequeno custo adicional para o setor, mas não uma desaceleração drástica das atividades atuais.
O pedido chega num momento em que o setor está bem dividido sobre o futuro da IA. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, defendeu em ensaio que a regulação de todas as grandes empresas americanas é a forma mais eficaz de frear o ritmo da IA. Sam Altman, da OpenAI, pediu padrões internacionais na ONU. Mark Zuckerberg, da Meta, disse não ver necessidade de coordenação e nem de uma desaceleração da indústria.
Em Washington, o cenário é de resistência. Donald Trump chamou as preocupações com IA de “farsa”, e o presidente da Câmara, Mike Johnson, se recusou a convocar os deputados para votar uma lei sobre o tema, segundo a NBC. O senador Bernie Sanders, por sua vez, propôs em 23 de setembro um projeto que pausaria temporariamente o desenvolvimento de IA avançada, informou o The Guardian.
A frente mais concreta está na Califórnia. O governador Gavin Newsom assinou uma ordem executiva que prevê a formação, em até 60 dias, de um grupo de especialistas para discutir planos de segurança e até um “kill switch” para os modelos mais avançados.





